tábua de marés
de poesia, arte e vida


Segunda-feira, Junho 29, 2009


arqueologia





Márcia Maia


MM, 11:22#

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Sexta-feira, Junho 05, 2009


márcia maia



outono


porque a chuva escorre
derretendo a paisagem
na janela
invento outra
navegando cores
coagulando a imagem
no espaço suspenso
entre a gota e
a vidraça
nada de insólito
crio
nada de exótico
acentuo apenas
os contornos da
minha mente errante
de outras eras
como a neve
rodopiando nos néons
da broadway
tão real quanto
meu rosto


do outro lado
da janela.



Márcia Maia


MM, 18:21#

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Domingo, Maio 17, 2009


poeminha cínico


mesmo o mais cinzento dos domingos
diz-se azul quando amanhece

ainda que em meio a terremotos
maremotos tempestades

mesmo o amor mais corrosivo sabe
a mel quando engatinha

ainda que respingue sangue e fel
a cada passo

mais importa o prometido que o
que encerra

à luz dos dias a crua e cínica
e vã realidade

sendo assim seguem sempre azuis
e doces os amores e os domingos -

a propaganda é a alma do negócio
bem se sabe



Márcia Maia


MM, 07:46#

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Quinta-feira, Maio 07, 2009


da difícil arte


não basta se dizer creio que é dengue
pois todos os sintomas o indicam
provar é necessário faz-se urgente

depressa há que buscar laboratório
exames se colher pois é preciso
em sangue se inscrever o diagnóstico

(e até o veredicto da ciência
repouso um remedinho e paciência)

que então definirá o prognóstico —
mas dá-se que o hemograma é impreciso
exame por sinal é acessório

importa mais a clínica ao doente
se todos os sintomas ratificam
não há que duvidar — afirmo é dengue



Márcia Maia


MM, 09:33#

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Sexta-feira, Maio 01, 2009


via satélite


às quatro da tarde
a lua
       (
        em close
                      )
alta no céu
na tela da tv aparece


             e diz-se luna



Márcia Maia


MM, 19:43#

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Sábado, Abril 25, 2009


um dia esplêndido


nana canta chico na vitrola
ao som dos sinos de ventos

um cheiro de feijão e carne
assada escapa da cozinha

há bons livros nas estantes
flores sobre a mesa

e um gato imaginário
dormita preguiçoso no sofá

por que então me aflige
a mudez contumaz do telefone

meio ao cantar sem fim
dos passarinhos



Márcia Maia


MM, 13:51#

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Domingo, Abril 12, 2009


paula rego©



pietà


tamanha dor
tão pouco deus



Márcia Maia


MM, 00:07#

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Sábado, Abril 04, 2009


à luz esverdeada do abajur


sob as flores púrpuras dos lençóis
as palavras esgarçam-se
arranhando a pele

(os vinte graus do ar
condicionado suavizam a noite)

e cerzem-se em memórias alheias
que de desbotadas em vão
querem-se suas



Márcia Maia


MM, 00:50#

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Sábado, Fevereiro 28, 2009


Márcia Maia©




sujeito a chuvas


em cinza e vento
espreguiça-se a manhã
e já vai a meio

chove
nem parece fevereiro

entre livros e discos
me aconchego

e sonho sonhos de junho
se adormeço



Márcia Maia


MM, 09:35#

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Segunda-feira, Fevereiro 23, 2009


fevereiro 23 9:40


no continuum tempo-espaço há clarins
e na pia a louça suja cordilheira-se

(entreocheirodeurinaquehánasruas
    eosuoraemanardasfantasias
amanhãemchuvafinaseconsome)

triste-vida cantam alto os bem-te-vis



Márcia Maia


MM, 10:21#

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Sábado, Fevereiro 14, 2009


quase melancolia


o sol se põe
e a orquestra entorna frevos
na esquina

pouco menos que a metade
da metade
de um compasso retardados



Márcia Maia


MM, 18:28#

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Sábado, Janeiro 31, 2009


como epidemia


como se em tantos o mesmo
tempo se tecesse
e as distâncias amanhecessem
duplicadas
estende-se a saudade
— como epidemia —
nas manhãs de sábado



Márcia Maia


MM, 07:06#

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Domingo, Janeiro 25, 2009





21 gramas


pudesse talvez um legista
dissecar-me os 21 gramas
perdidos à hora da morte
e que se crê sejam a alma
encontraria 20 gramas de vazio
um de descrença e absolutamente
nenhuma calma     tampouco alma



Márcia Maia


MM, 18:58#

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Segunda-feira, Janeiro 12, 2009


lilya corneli©



o avesso do desejo


te encontraria
no deserto
às dez e meia
tonto de luz
passos trôpegos sobre a areia movediça

eu te desnudaria
meio-dia
sol a pino
e te manteria prisioneiro
até que tingisse
a tua pele
o mais negro ou rubro tom
e cegasse os teus olhos o sol da tarde.

te abandonaria então
nu e insone
meio às sombras
sem sonhos
onde te escondias das noites quentes
de antigos janeiros

por fim partiria
liberta
de ti
e do cárcere gelado
dos interditados verões do teu amor

desejo ao avesso
ainda pulsando em mim



Márcia Maia


MM, 20:51#

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Domingo, Janeiro 04, 2009


quase retrato


um resto de torta no prato
o copo inda rubro de vinho

resquício de riso nos lábios
um canto de edu e torquato

e o avesso do verso por véu



Márcia Maia


MM, 10:23#

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Quinta-feira, Janeiro 01, 2009


Feliz ano todo, meus amigos!



And, please, stand by me. ;))


MM, 02:26#

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Terça-feira, Dezembro 30, 2008


antes que termine o ano do centenário:




machadiano


oh! flor do céu! oh! flor cândida e pura!
insone flor noturna que me ronda
a cama quanto mais tardia esconda
a aurora tudo em ti que sei doçura

oh flor da terra oh flor que anseio impura
lasciva ardente rubra e hedionda
serpente abismo negra gioconda
um fogo que me afoga em desventura

mas não — que nada em ti seja imperfeito
que em ti nada profane o meu desejo
infame flama — ávida navalha

oh flor enclausurando-te-me ao peito
singrando amor e dúvida antevejo
perde-se a vida! ganha-se a batalha!



Márcia Maia


MM, 23:54#

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Sexta-feira, Dezembro 26, 2008


urbano em demasia


um dia inteiro de britadeiras
à porta
inferno aos ouvidos

reformam o sobrado da esquina
e por toda a vizinhança
soçobram versos
canções
risos e mesmo
o que a alguns resta de juízo

quem os haverá de resgatar findada a obra



Márcia Maia


MM, 11:53#

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Domingo, Dezembro 21, 2008


quase um poema de natal


eu queria um natal sem luzes
sem sinos sem coroas sem presentes
sem festas de confraternização
onde se repete quase escandindo
(e à exaustão) a palavra so-li-da-ri-e-da-de

eu queria um natal mais solstício
que natal — um natal pagão —
um natal simples sem palco
onde a gente ousasse ser apenas gente
como a gente que a gente é nos outros dias



Márcia Maia


Para todos vocês, meus amigos queridos, estejam onde estiverem, o melhor dos natais. E meu beijo.


MM, 21:08#

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Segunda-feira, Dezembro 15, 2008


Márcia Maia




prisma


à janela da cozinha derrama-se
o pôr-do-sol e atinge-me em cheio
a mim que só buscava beber um copo d'água
e que ali permaneço imobilizada em tons de
carmim e azul-turquesa
como se fôramos juntos o copo o céu a cozinha
e eu um grande bloco colorido de cristal
prestes a partir-se tão logo se encerre
à janela mais este pôr-do-sol



Márcia Maia


MM, 19:42#

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