porque a chuva escorre
derretendo a paisagem
na janela
invento outra
navegando cores
coagulando a imagem
no espaço suspenso
entre a gota e
a vidraça
nada de insólito
crio
nada de exótico
acentuo apenas
os contornos da
minha mente errante
de outras eras
como a neve
rodopiando nos néons
da broadway
tão real quanto
meu rosto
pudesse talvez um legista
dissecar-me os 21 gramas
perdidos à hora da morte
e que se crê sejam a alma
encontraria 20 gramas de vazio
um de descrença e absolutamente
nenhuma calma   tampouco alma
te encontraria
no deserto
às dez e meia
tonto de luz
passos trôpegos sobre a areia movediça
eu te desnudaria
meio-dia
sol a pino
e te manteria prisioneiro
até que tingisse
a tua pele
o mais negro ou rubro tom
e cegasse os teus olhos o sol da tarde.
te abandonaria então
nu e insone
meio às sombras
sem sonhos
onde te escondias das noites quentes
de antigos janeiros
por fim partiria
liberta
de ti
e do cárcere gelado
dos interditados verões do teu amor
eu queria um natal sem luzes
sem sinos sem coroas sem presentes
sem festas de confraternização
onde se repete quase escandindo
(e à exaustão) a palavra so-li-da-ri-e-da-de
eu queria um natal mais solstício
que natal — um natal pagão —
um natal simples sem palco
onde a gente ousasse ser apenas gente
como a gente que a gente é nos outros dias
Márcia Maia
Para todos vocês, meus amigos queridos, estejam onde estiverem, o melhor dos natais. E meu beijo.
à janela da cozinha derrama-se
o pôr-do-sol e atinge-me em cheio
a mim que só buscava beber um copo d'água
e que ali permaneço imobilizada em tons de
carmim e azul-turquesa
como se fôramos juntos o copo o céu a cozinha
e eu um grande bloco colorido de cristal
prestes a partir-se tão logo se encerre
à janela mais este pôr-do-sol