tábua de marés
de poesia, arte e vida


Sábado, Outubro 24, 2009


sideral


quando toco o céu
na tua boca um mar
de estrelas brota em mim



Márcia Maia


MM, 20:16#

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Sábado, Outubro 10, 2009


Com algum atraso, o meu cotidiana e virtual geometria, vencedor do Prêmio Violeta Branca Menescal, Manaus, 2007, como melhor livro
de poesia:






carta de navegação


romper cadeias e escrever além dos códices
e dos modismos da vanguarda — além do cânone
ultrapassar a concisão do verso mínimo
compor sonetos no rigor de rima e métrica
tentando ingleses portugueses e simétricos
aventurar-se do insensato ao ultra-lúcido
do social ao pornográfico e ao lírico
e ainda ousar o verso livre e — sem metáforas
desembocar meio a haicais belos e herméticos
e retornar a esgrimir o econômico
minimalismo da palavra exposta ao máximo
usufruir a criação de modo ávido
na liberdade de dizer-se o que é legítimo
fiel apenas à poesia em si e à ética



(barr)oco


um oco mais oco que o oco
do coco esquecido da água
que escorre do oco do coco
e um oco mais oco que o oco
no corpo do coco destrava

um oco mais oco que o oco
um oco sem corpo e sem coco
um oco mais copo que corpo
repleto do oco mais oco
que o oco do oco — nonada



ômega


voem os peixes sobre as árvores de enforcados
e no escuro mais profundo do oceano possam
os pássaros finalmente erguer seus ninhos

teça o vento tsunamis de estrelas de napalm
que derramem-se e derretam todo olho toda pele —
salgue o sangue o que era leite o que era rio

e da terra que era terra e que ora nada nenhuma
vida rebente até que em frio faça-se o quente
até que o que era consciência seja caldo elemental

até que um deus qualquer desperte e o ciclo todo recomece




Márcia Maia


MM, 12:24#

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Sábado, Setembro 19, 2009


vilmos aba-novák©



o quadro


complacente   ela se aquieta     e espia
não o toca     nada neles diz intimidade

estão ali há séculos   imóveis sentados
o silêncio retumbando em cores vívidas



Márcia Maia


MM, 19:31#

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Sábado, Agosto 29, 2009


márcia maia©  

                                           Paraty: pé-de-moleque  


nem se fosse foxtrote






Márcia Maia


MM, 14:06#

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Sexta-feira, Agosto 21, 2009


sem andor


os ídolos se eu os tivesse
talvez viveriam por anos
enquanto se entretecesse
a teia dos seus encantos

por muitos ou parcos instantes
tal sóis ou estrelas cadentes

desluziriam os meus olhos
até que num dia qualquer
exorcizaria tais ídolos

tornando-os mais fátuos que eternos
em todos os tons de amarelo



Márcia Maia


MM, 22:49#

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Sábado, Agosto 15, 2009


des-itinerário

                  a iosif e também a rodrigo


a morte espreita atrás da tela do computador
janela aberta sobre o mundo
de onde nada se avista
além do dia
a debruçar-se azul e inutilíssimo
sobre o precipício que se escancara em agosto



Márcia Maia


MM, 12:27#

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Domingo, Agosto 09, 2009





De meu pai herdei a cor da pele
e um leve inclinar da cabeça
para a direita
nas fotografias.
Um jeito intenso de viver
amar e dar presentes.
Uma afabilidade cúmplice
no trato com as pessoas
além da profissão
exercida como sacerdócio.
O gostar de almôndegas
cozido e guisado
a mania de cortar toda a carne
no prato
antes de comê-la
e o incômodo de acordar
às quatro e meia
quando poderia dormir
até às dez.



Márcia Maia


para os meus amigos que são pais, meu carinho e meu beijo.


MM, 12:26#

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Quinta-feira, Julho 09, 2009


sequência


toco a teia de ausência nesta tarde
que semelha mais outono
que verão

e o silêncio se me gruda à pele e arde
qual lamento de sem dono
gato ou cão

colhendo fado e infância em cada parte
deste réquiem de abandono
sem perdão

que ora entôo



Márcia Maia


MM, 16:46#

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Segunda-feira, Junho 29, 2009


arqueologia





Márcia Maia


MM, 11:22#

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Sexta-feira, Junho 05, 2009


márcia maia



outono


porque a chuva escorre
derretendo a paisagem
na janela
invento outra
navegando cores
coagulando a imagem
no espaço suspenso
entre a gota e
a vidraça
nada de insólito
crio
nada de exótico
acentuo apenas
os contornos da
minha mente errante
de outras eras
como a neve
rodopiando nos néons
da broadway
tão real quanto
meu rosto


do outro lado
da janela.



Márcia Maia


MM, 18:21#

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Domingo, Maio 17, 2009


poeminha cínico


mesmo o mais cinzento dos domingos
diz-se azul quando amanhece

ainda que em meio a terremotos
maremotos tempestades

mesmo o amor mais corrosivo sabe
a mel quando engatinha

ainda que respingue sangue e fel
a cada passo

mais importa o prometido que o
que encerra

à luz dos dias a crua e cínica
e vã realidade

sendo assim seguem sempre azuis
e doces os amores e os domingos -

a propaganda é a alma do negócio
bem se sabe



Márcia Maia


MM, 07:46#

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Quinta-feira, Maio 07, 2009


da difícil arte


não basta se dizer creio que é dengue
pois todos os sintomas o indicam
provar é necessário faz-se urgente

depressa há que buscar laboratório
exames se colher pois é preciso
em sangue se inscrever o diagnóstico

(e até o veredicto da ciência
repouso um remedinho e paciência)

que então definirá o prognóstico —
mas dá-se que o hemograma é impreciso
exame por sinal é acessório

importa mais a clínica ao doente
se todos os sintomas ratificam
não há que duvidar — afirmo é dengue



Márcia Maia


MM, 09:33#

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Sexta-feira, Maio 01, 2009


via satélite


às quatro da tarde
a lua
       (
        em close
                      )
alta no céu
na tela da tv aparece


             e diz-se luna



Márcia Maia


MM, 19:43#

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Sábado, Abril 25, 2009


um dia esplêndido


nana canta chico na vitrola
ao som dos sinos de ventos

um cheiro de feijão e carne
assada escapa da cozinha

há bons livros nas estantes
flores sobre a mesa

e um gato imaginário
dormita preguiçoso no sofá

por que então me aflige
a mudez contumaz do telefone

meio ao cantar sem fim
dos passarinhos



Márcia Maia


MM, 13:51#

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Domingo, Abril 12, 2009


paula rego©



pietà


tamanha dor
tão pouco deus



Márcia Maia


MM, 00:07#

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Sábado, Abril 04, 2009


à luz esverdeada do abajur


sob as flores púrpuras dos lençóis
as palavras esgarçam-se
arranhando a pele

(os vinte graus do ar
condicionado suavizam a noite)

e cerzem-se em memórias alheias
que de desbotadas em vão
querem-se suas



Márcia Maia


MM, 00:50#

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Sábado, Fevereiro 28, 2009


Márcia Maia©




sujeito a chuvas


em cinza e vento
espreguiça-se a manhã
e já vai a meio

chove
nem parece fevereiro

entre livros e discos
me aconchego

e sonho sonhos de junho
se adormeço



Márcia Maia


MM, 09:35#

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Segunda-feira, Fevereiro 23, 2009


fevereiro 23 9:40


no continuum tempo-espaço há clarins
e na pia a louça suja cordilheira-se

(entreocheirodeurinaquehánasruas
    eosuoraemanardasfantasias
amanhãemchuvafinaseconsome)

triste-vida cantam alto os bem-te-vis



Márcia Maia


MM, 10:21#

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Sábado, Fevereiro 14, 2009


quase melancolia


o sol se põe
e a orquestra entorna frevos
na esquina

pouco menos que a metade
da metade
de um compasso retardados



Márcia Maia


MM, 18:28#

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Sábado, Janeiro 31, 2009


como epidemia


como se em tantos o mesmo
tempo se tecesse
e as distâncias amanhecessem
duplicadas
estende-se a saudade
— como epidemia —
nas manhãs de sábado



Márcia Maia


MM, 07:06#

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