tábua de marés
de poesia, arte e vida


Domingo, Julho 30, 2006


Porque hoje ele faria 100 anos:


Os degraus


Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...



Mario Quintana





Os degraus


Sigo em frente - um a um desço os degraus
(a despeito dos avisos do poeta)
se me espera um sonho novo ou pesadelo
saberei quando chegar onde me levam

Vejo vultos se achegando a essa escada
e lanternas que parecem flutuar
ouço vozes que se alternam em gemidos
a bailar qual acalanto em meus ouvidos

E então vejo frente a mim a me fitar
minhas faces mais antigas e (encantada)
em seus olhos que são meus e me relevam

eu mergulho corpo e alma - nua em pelo
A seguir me faço verso e raio e seta
- quintaneio em sonhos bons os dias maus



Márcia Maia


MM, 00:06#

Ou aqui:




Quinta-feira, Julho 27, 2006


prêt-à-porter


o pinheiro renascido
o ninho refeito (ou caído)
o vento soprando que é julho

e alguma nudez de abraço
tecida em ausência finíssima



Márcia Maia


MM, 16:00#

Ou aqui:




Sábado, Julho 22, 2006


versos de circunstância


os passos soltos no espaço
simulam crepúsculos e hemorragias

exploram montanhas
vales escalam

transmutam o cinza dos dias em
todos os tons do escarlate

assim que pressentem a passagem
da moça que ousa

em sapatos de saltos vermelhos



Márcia Maia


MM, 07:53#

Ou aqui:




Quinta-feira, Julho 20, 2006


Pelo dia da amizade, com um beijo:





Da natureza da amizade


Ah, como se melindra a amizade
ante o orgulho, a inveja, o descaso, o ciúme
ou o egoísmo
pois é paciente e em sua calma
é fiel.
Não traz em si o fogo do amor
ou os relâmpagos efêmeros da paixão
Cultiva, antes, o encantamento de renovar-se
a cada encontro
como se fora a primeira visão
do amigo.

É âncora e asas
música e silêncio
cais encantado onde aporta a nau do viver.
Mágica e misteriosa, cristal e rocha,
é rara espécie de planta
que precisa ser cuidada a cada dia
com esmero
no desvelo do carinho
na solicitude do compartilhar .

Mas não resiste à erosão
que os ventos do abandono lhe impõem
nem à sede do deserto onde se abrigam prepotência
e egoísmo.
Fenece e morre
deixando um vazio jamais preenchido
uma noite sem amanhecer.
Pois se um amor se esquece em outro amor
o amargor de perder-se um amigo
não se cura na doçura de outro
amigo.



Márcia Maia


MM, 09:45#

Ou aqui:




Quinta-feira, Julho 13, 2006


180


Eu diria não do amor mas do vivido
que inolvido ainda lê-se sob a linha
que escrevinha em minha pele o teu olhar
- um tocar que prenuncia a tua mão

Eu diria não da noite mas da lua
a rasgar na rua o véu de noite e vento
do advento da palavra feita espanto
no enquanto de um momento sem entanto

Eu diria e mais direi do alumbramento
e a contento dir-me-ei além de tua
quando nua tens-me inteira aqui ou não

Por ser vão o possuir-se aquém do amar
ao falar mesmo distante sei que aninha
e adivinha-me o teu corpo inesquecido



Márcia Maia


MM, 08:18#

Ou aqui:




Segunda-feira, Julho 10, 2006


des-encontro

para Júlio Zefa Amaral


e porque você partiu sem me avisar
sem me dar tempo de chegar
para encontrá-lo

em vez de um poema-lavoura
restou um triste Edward
a recortar versos verdes nas
nuvens das tardes

e em meus olhos de mangue
um violino distante
qual disco arranhado
desfiando mil vezes a palavra

saudade



Márcia Maia


Pobre, nº 26, dedicado ao poeta Júlio Amaral, que em junho, partiu. Confira.

E leia Júlio aqui.



MM, 16:21#

Ou aqui:




Sexta-feira, Julho 07, 2006


acumulada


na calçada junto à sebe
serpenteia em silêncio a fila imensa
encostando-se à parede
cada vez que outra vez a chuva aumenta

quando menos se adivinha
sobre a rua encharcada um carro passa
água e lama espalha e espirra
na calçada até onde a fila alcança

miserável diz alguém
fildaputa ensopado outro revida
chora ali perto um bebê

e à marquise com ar de entediada
pouco além da loteria
longamente os espreita a esperança



Márcia Maia


MM, 18:58#

Ou aqui:




Domingo, Julho 02, 2006


de bola e míssil


não que seja necessária a observância
do mover-se em queda livre dos projéteis
nem tampouco da figura que descrevem
desde o instante em que alçam vôo até a queda

sobre o alvo seja ele casa ou gente
avião carro comboio ou no gramado
entre as traves que demarcam a baliza

e antes mesmo que se cobre aqui se avisa
não chorar-se sobre leite derramado
pois que o tempo corre sempre e só pra frente
e isso vale de parreira à al-quaeda

(...)

nas manchetes dos jornais hoje se inscrevem
lado-a-lado as conseqüências dos projéteis -
talvez seja relevante a observância



Márcia Maia


MM, 06:56#

Ou aqui:


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